Do campo à delegacia: o falso passaporte para o futebol

Sonhos à venda: como Fabrício Feijó Soares transformou o futebol de base em armadilha para famílias do Rio

 Fabrício Feijó Soare - Foto reprodução

Por Bertha Muniz

Promessas de carreira, cobranças de até R$ 1,5 mil e abandono de adolescentes revelam método que se repete há anos; polícia de Conceição de Macabu pede que vítimas procurem a 122ª DP para formalizar denúncias

Queimados, na Baixada Fluminense, e Conceição de Macabu, no Norte Fluminense, tornaram-se os principais pontos de relatos no RJ. Vítimas descrevem o mesmo roteiro: cobrança antecipada, uso de contas de terceiros e desaparecimento após viagens esportivas.

Eles tinham mochila, chuteira nova e um contrato cheio de palavras difíceis. O que não tinham era volta para casa. Depois de um amistoso improvisado em São Paulo, mais de 40 jovens atletas descobriram que o ônibus para o Rio Grande do Sul não estava pago e que o homem que organizou a viagem havia desaparecido.

O sonho de disputar a Copa Cidade Verde virou desespero coletivo. Sem água, sem dinheiro e sem notícias do dirigente, adolescentes entre 14 e 17 anos passaram horas na estrada dependendo de vaquinhas para comer e de um ônibus improvisado para retornar ao Rio.

O responsável pela excursão foi apresentado às famílias como empresário do futebol. Hoje, ele é apontado como personagem central de um enredo antigo: o de Fabrício Feijó Soares, também conhecido por usar outros nomes, investigado em diferentes estados por estelionato, apropriação indébita e denúncias de assédio.

 

“Ele sumia com o dinheiro e com os sonhos” – relato de quem acompanhou o golpe

O leitor Edmilson Santos de Oliveira, morador de Queimados, na Baixada Fluminense, acompanhou de perto a frustração de atletas que acreditaram na promessa de profissionalização. Segundo ele, o discurso do suspeito era sempre direcionado a jovens de origem humilde.

 

“Ele disse que era oportunidade para a gente da comunidade, que custaria R$ 1.500. Treinamos meses, pagamos academia, material, tudo para ir bem fisicamente para Porto Alegre. No fim, ele sumiu com tudo”, narra Edmilson.

 

De acordo com o relato, não havia critério nos valores cobrados e as famílias precisaram se mobilizar às pressas para cobrir despesas inesperadas. “Cada atleta pagou um valor diferente: 800, 1.200, 1.300… juntaram até dinheiro das mães do sub-15 para consertar ônibus. Pegaram até R$ 2 mil de um professor da comissão”, desabafa.

Edmilson afirma que a mudança constante de identidade dificultava qualquer desconfiança prévia. “Em cada lugar ele não usava o nome de Fabrício. Dava um nome diferente. Além do estelionato, tem falsidade ideológica”, acrescenta.

O leitor também descreve uma tentativa de apagar rastros digitais após o colapso da viagem. “Ele apagou o Instagram do time que estava no celular dele, apagou tudo. Acho que quebrou os chips para não ser rastreado”, relata.

O impacto financeiro atingiu dezenas de famílias. “Foram 40 atletas, uns 20 do sub-15 e 20 do sub-17. Muita gente que desistiu não teve o dinheiro devolvido. No final passou de R$ 70 mil”, estima.

Outra estratégia, segundo Edmilson, era o uso de contas de terceiros para movimentar os valores. “Ele usava PIX de outras pessoas. O dinheiro foi para conta de terceiros, ninguém sabe nem se é parente dele de verdade”, afirma.

Para o leitor, ainda há pistas que podem auxiliar a investigação. “A gente falou para a polícia puxar o registro de ligações, porque mesmo com chip quebrado fica tudo no sistema. Pode ter alguém ajudando ele”, conclui.

Foto reprodução- Extraida video nas redes sociais

 

Um filme que passou em outros estados

Reportagens de 2017 a 2019 registram que Fabrício Feijó Soares foi preso em Minas Gerais por furtar pertences de atletas em hotel e já havia sido denunciado no Mato Grosso do Sul por prometer levar adolescentes para clubes do Sul do país.

Em Conceição de Macabu, ele se apresentou como “Samuel Soares” e ofereceu vagas em projetos esportivos. Testemunhas afirmam que chegou a sacar dinheiro com cartão de um atleta e abandonar jovens de Bahia, São Paulo e Goiás sem recursos para voltar para casa.

Em outra cidade, utilizou o nome Fabrício Clopp, aparecendo como treinador campeão de competição sub-20, antes de deixar o clube repentinamente.

Reportagens entre 2017 e 2019 descrevem roteiro quase idêntico: promessas de peneira, cobrança de taxas, alojamentos precários e desaparecimento. Em Minas, o suspeito teria confessado furtos e assédio. No Mato Grosso do Sul, mães denunciaram quebra de contratos. Em Macabu, apresentou-se como “Samuel” e ofereceu vagas até no exterior, como Egito.

 

Mapa do golpe: Dois pontos do RJ, o mesmo esquema

Os episódios registrados em Queimados, Baixada Fluminense, e em Conceição de Macabu, no Norte Fluminense, revelam que o esquema se consolidou primeiro dentro do próprio estado do Rio de Janeiro antes de alcançar outras unidades da federação. Apesar da distância entre as cidades, o padrão é idêntico: aproximação de famílias de baixa renda, promessa de profissionalização rápida, cobrança de valores para viagens, uso de contas de terceiros e sumiço após o primeiro jogo.

A fragmentação das denúncias favorece a impunidade. Cada vítima procura a delegacia de sua cidade, enquanto o suspeito ressurge em outro território com novo nome e novo projeto esportivo.

Embora separados por centenas de quilômetros, os relatos seguem o mesmo roteiro: aproximação de famílias de baixa renda, promessa de profissionalização rápida, cobrança de taxas para viagens, uso de contas de terceiros para receber pagamentos e desaparecimento após o primeiro amistoso.

Para investigadores, essa movimentação entre regiões diferentes do RJ e depois para outros estados fragmenta as denúncias. Cada vítima procura a delegacia de sua cidade, enquanto o suspeito ressurge em novo território com outro nome e novo projeto esportivo.

Fabrício Feijó Soares em 2019, aplicou o golpe na cidade de Conceição de Macabu - RJ - Foto reprodução

 

Denúncias de assédio sexual aparecem no histórico

Além do prejuízo financeiro, antigos boletins de ocorrência registram acusações de assédio sexual contra adolescentes ligados aos projetos conduzidos por Soares. Em Minas Gerais, a polícia apreendeu um celular do suspeito durante prisão por furto e investigou abordagens impróprias a menores com promessa de vantagem no futebol.

No Mato Grosso do Sul, mães relataram que filhos teriam sido constrangidos com propostas de relacionamento em troca de suposta colocação em clubes. Como envolvem crianças e adolescentes, os fatos configuram crime de ação pública, obrigando o Estado a investigar independentemente de representação.

 

O que diz a polícia de Conceição de Macabu

O delegado Ruchester Marreiros, titular da 122ª Delegacia Policial de Conceição de Macabu (122ª DP), afirmou que o avanço das investigações depende de registros formais.

 

“Se alguém foi vítima e ainda não registrou, pode procurar a delegacia. Mesmo quem acha que não é crime, é crime sim. É preciso levar conversas, contatos e comprovantes. Só com o nome não conseguimos qualificar.”

 

Ele explicou que, para adultos, o estelionato exige representação; já nos casos com menores, a investigação ocorre independentemente da vontade dos responsáveis. “Mesmo que o chip tenha sido descartado, registros de ligação e transferências podem ser recuperados.” O delegado afirma que ainda não houve registro formal recente na unidade.

 

“Muitas pessoas acham que não foram vítimas de crime, mas isso é crime sim. É preciso levar conversas, telefones, PIX, qualquer dado que ajude na qualificação”, explicou. Segundo o delegado, quando há crianças e adolescentes, a investigação ocorre independentemente de representação.

 

“Basta que alguém comunique o fato. A polícia vai até a vítima, ouve responsáveis e apura. O Estado tem obrigação de agir.” Marreiros alertou para a dificuldade de apurar casos fragmentados.

 

“Tentar investigar em Macabu fatos de outros estados exige que as vítimas narrem exatamente onde tudo ocorreu. Sem isso, não conseguimos delimitar o objeto da investigação.” Segundo a 122ª DP, ainda não houve comparecimento recente de vítimas do caso atual.

 

Feridas que não são só financeiras

As famílias falam em prejuízo que ultrapassa o dinheiro. Houve rifa para comprar chuteira, vaquinha para pagar passagem, meses de treino acreditando em uma porta de saída.

 

“Dinheiro a gente recupera. Meu filho apostou tudo nisso”, disse um dos pais. Especialistas afirmam que golpes no futebol atingem a identidade dos jovens: não é apenas perda material, mas a ruptura de um projeto de vida.

 

Rede de silêncio e medo

Perfis de redes sociais foram apagados e telefones deixaram de responder. A polícia suspeita de uso de “laranjas” para movimentar valores e não descarta investigação por organização criminosa.

 

A cronologia do mesmo roteiro

 

2017 – MS: denúncias de maus-tratos e assédio em projeto esportivo.

2018 – MG: prisão por furto em hotel; investigação por estelionato.

2019 – Macabu (RJ): atletas abandonados sem recursos.

2024 – PA: surge como “Fabrício Clopp” e deixa equipe sub-20.

2026 – SP/RJ: 40 atletas pagam viagem e ficam à deriva.

 

Foto reprodução

 

A investigação começa com a denúncia

Diante das denúncias, a Polícia Civil orienta que todas as vítimas registrem ocorrência, medida considerada essencial para que o suspeito seja formalmente investigado, identificado e localizado. O registro pode ser feito na 122ª Delegacia Policial de Conceição de Macabu (122ª DP) ou em qualquer delegacia do estado, já que os procedimentos são integrados. A recomendação é apresentar comprovantes de PIX, prints de conversas, contratos, números de telefone e qualquer documento que comprove os pagamentos.

O delegado Ruchester Marreiros ressaltou que, nos casos envolvendo crianças e adolescentes, a investigação ocorre independentemente de representação dos responsávei, basta que o fato seja comunicado às autoridades. Denúncias também podem ser encaminhadas pelos canais da Polícia Civil e pelo Disque-Denúncia, garantindo sigilo ao informante.

Dr. Ruchester Marreiros - Delegado Titular da 122 DP de Conceição de Macabu - RJ.

 

O clube citado informou, por meio de nota, que não organizou a excursão, que o dirigente apontado foi afastado e que medidas internas estão sendo adotadas. A reportagem não localizou Fabrício Feijó Soares para apresentar sua versão. O espaço permanece aberto para manifestação.

Enquanto isso, entre malas ainda fechadas e dívidas abertas, os meninos tentam retomar a rotina de treinos. O futebol continua sendo sonho, agora atravessado pela desconfiança. A partida que deveria levá-los ao Sul terminou na porta de uma delegacia, onde começa outra disputa: provar que não foram apenas derrotados, e sim enganados, e que denunciar é o primeiro passo para que o responsável seja responsabilizado.

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